Posteado por: alejandrolodi | 18 marzo, 2010

Supostos na interpretação astrológica

Alejandro Lodi

(Tradução de Elisabeth Paes)

Com matizes variados, existem duas colocações básicas diante do desafio de interpretar um mapa natal. Uma delas é mecânica, determinista, descritiva, classificatória, literal. Define as características da personalidade de uma maneira fixa e estática, ao mesmo tempo em que prescreve “aquilo que deve ser feito” e “aquilo que deve ser evitado”. Assim , com este olhar, o indivíduo “é sempre o mesmo” e só pode ganhar ou perder, ser feliz ou desditado, premiado ou castigado pela vida, de acordo com o saber aproveitar ou não os momentos favoráveis e evitar os infortúnios (e ambos, claro, poderiam ser previstos pelo astrólogo). Fundamentalmente, o indivíduo aparece separado dos acontecimentos externos, numa relação de temor e conflito com relação ao mundo, e desde esse medo e desconfiança da vida, a astrologia emerge como uma ferramenta para controlar o destino.

Outra maneira de se fazer a interpretação de um mapa astral parte de uma concepção do indivíduo  vinculada ao movimento e desdobramento. Com este olhar, a relação com o destino resulta dinâmica, transformadora e criativa, no sentido que, aquilo que profundamente somos se revela e se manifesta no vínculo com nosso destino. Assim, o desejo de controlar os acontecimentos de nossa vida cede diante da percepção de que, tentando evitar nosso destino (porque tememos que não coincida com nossos desejos) estaríamos eludindo  a revelação de níveis criativos de nosso ser e confirmando nossa identificação com o medo, a desconfiança e o controle.
Este outro olhar (talvez esta outra astrologia), dissolve as fronteiras entre mundo interno e mundo externo, já que, fundamentalmente, inclui o destino como parte do processo psíquico do ser, antes que considerá-lo como algo exterior , ameaçador e temido. Nossos vínculos, acontecimentos e experiências da vida em absoluto resultam azarentos e fatais, mas sim profundos símbolos ligados ao mistério, à manifestação do inconsciente, à dinâmica do  processo psíquico e, em definitivo, ao desenvolvimento da consciência.
Tomemos o caso do hipotético mapa natal de um indivíduo (a quem chamaremos de Carlos) com as seguintes características:
•    Sol em Virgem
•    Sol oposição Saturno
•    Sol conjunção Urano
•    Ascendente em Áries.

Seguindo o olhar determinista, fixo e estático, poderíamos enunciar definições contundentes sobre Carlos, porém logo cairíamos em contradições que não saberíamos como resolver. Por exemplo, pelo seu Sol em Virgem o definiríamos como alguém prático, lógico, crítico e detalhista, preocupado com a ordem, com o correto funcionamento da vida cotidiana e que presta particular atenção à saúde, higiene e a guardar fidelidade aos usos e costumes. Tais características resultariam afins com outras, por exemplo com as correspondentes à sua condição de Sol oposição Saturno e que falam de uma expressão ordenada, com profundo sentido do dever, seriedade e responsabilidade.
No entanto, Carlos não é só Sol em Virgem e em oposição a Saturno, mas também Sol conjunção Urano e Ascendente em Áries. E que características aparecem com estes outros traços de seu mapa? A de ser uma personalidade independente, que questiona as normas, rebelde e transgressora, disposta às mudanças imprevistas e súbitas, antes que sustentar a tradição e a continuidade com o passado, a ser extravagante e arriscado antes que arrumado e prudente.
Aqui é onde o enfoque cai em definições um tanto quanto contraditórias, vagas e inconsistentes: “você é muito sensato, mas às vezes comete loucuras”, “tem uma grande capacidade de dedicação ao trabalho, mas de repente pode ter inexplicáveis cortes e deserções” ou “possui grande senso de responsabilidade, mas desconcertantes gestos de imprudência”, etc. São definições que não deixam de ter uma parte da verdade, mas que se tornam planas, sem relevo, descrições fixas, sentenças inapeláveis, onde parece que não há nada a fazer, exceto aproveitar “o bom” e suportar “o mau” deste estigma fatal (por acaso um mau karma?) com que o destino  “me puniu”.
Mas qual seria a interpretação deste mesmo mapa natal visto a partir de um olhar mais inclusivo? De início, partiríamos da suposição de que ali onde o mapa parece mostrar uma contradição, na verdade está se manifestando um paradoxo, um desafio para a consciência.
Nosso ponto de partida será considerar que diante da aparente contradição descrita (previsível, ordenado e adaptável, ao mesmo tempo arriscado, inovador e independente) a consciência vai se identificar com alguns destes pólos em aparente tensão, (ou seja, a pessoa acredita ser só uma das duas características) e que o outro pólo não será reconhecido como uma qualidade própria, e portanto, termina inibido, reprimido ou negado. Desta maneira, este traço do próprio mapa que se torna excluído do que o indivíduo acredita ser, ou seja, de sua sensação de identidade, será finalmente projetado no mundo exterior, onde se manifestará em vínculos e situações de destino.
Poderíamos dizer que isso ocorre porque na verdade a vida não está pedindo a Carlos que seja “uma coisa ou outra”, senão que desenvolva uma criativa síntese de ambas as qualidades. Certamente, pelo fato de não ser simples esta tarefa de expansão, inclusão e compreensão, não implica que não possa ser levada a cabo no nível de nossas identificações pessoais cotidianas e habituais (“o que acredito ser”), mas que requer assumir o desafio de uma transformação espiritual (abrir-me ao que a vida revela que sou).
E é aqui onde necessitamos o contato com a pessoa, conhecer sua história para descobrir com qual pólo se identificou e qual foi projetado.  No entanto, podemos levantar algumas hipóteses.  Nesse caso em particular, se Carlos se identifica com o pólo responsável, ordenado e previsível (ou seja, se Carlos acredita ser “só isso”) talvez nos conte de sua inexplicável atração por vínculos um tanto extravagantes e incertos, ou de acontecimentos imprevistos que parecem jogar por terra todas suas construções, ou até mesmo de certo cansaço, fadiga existencial, aborrecimento ou falta de entusiasmo pela vida. Isto revela que, enquanto Carlos esforça-se por cumprir com a ordem e ser conseqüente com o que se espera dele, na verdade estará sacrificando o potencial de vitalidade que seu pólo criativo e autônomo possui, mas que Carlos crê não ser.
Por outro lado, se Carlos se identificasse exclusivamente com seu desejo de independência, liberdade e rebeldia e se dispusesse a desafiar  todo limite e autoridade, talvez sua queixa se apresente como um pai que “não o deixa ser” e no qual verá apenas arbitrariedade e tirania, ou por recorrentes problemas de saúde que o impedem de que seu espírito de aventura alce vôo, ou por relações que o obriguem a assumir responsabilidades forçadas e carregar com penalidades injustas. E isto revela que, enquanto Carlos só se sente animado por seu afã de não compromisso, absoluta autonomia e expressão individual sem condições, na verdade estará desperdiçando sua capacidade de construir estruturas plenas de vitalidade e autenticamente sólidas, por saber combinar organização e criatividade.
Seguindo nossa lógica, fica claro que aqueles vínculos ou situações de destino aparentemente “exteriores”, em realidade estarão propiciando o encontro de Carlos com aquelas qualidades que profundamente o constituem, mas nas quais não é capaz de reconhecer-se, por temor, desconcerto ou condicionamentos internos do passado. O desenvolvimento desse progressivo, complexo e muitas vezes doloroso descobrimento do que somos através dos vínculos e destino, não é outra coisa que a experiência da viagem da consciência.

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