Posteado por: alejandrolodi | 14 mayo, 2010

A astrología é uma obviedade complexa

Alejandro Lodi

Artigo editado na Lettre des Astrologues. Nº 55. Publicação do FDAF (Federação de Astrólogos Francófonos).

“-Dispa-te”

Diz-lhe ao fim a alma

Ao corpo divino

“-E tem piedade que está exânime-”

E torna em si

E torna em si

Como uma flor

Que ao tempo ignora,

E que horas são, e que dia é hoje?

Luis Alberto Spinetta

 Não existe uma realidade “ali fora”, objetiva, já dada, esperando ser descoberta por aquele que consiga desenvolver o conhecimento e sabedoria necessária. Mas existe uma realidade que se revela nítida à consciência.

Por exemplo, embora Saturno sim existe como planeta físico no Sistema Solar, não existe como “coisa” se referirmos a ele como principio energético. Assim considerado astrologicamente, Saturno não é algo que está ali fora esperando ser descoberto pela mente sagaz. Mas Saturno se transparenta em fatos que experimentamos, graças ao dom que opere na consciência para assim significá-los.

A consciência significa certos fatos e esse significado transparenta um princípio universal.

Não é um significado inventado, nem descoberto, mas sim é revelado, transparentado. Essa realidade que se revela não “tem” substância material por si mesmo, mas sim adquire substância material. Essa realidade é como um oceano de princípios universais sem definições espaciais nem temporárias, mas que participam de outra ordem de sustancialidade, uma ordem que se atualiza ou realiza (faz-se atual ou se faz real) no mundo que percebemos com nossos sentidos. Essa outra substância tem mais que ver com a do inconsciente: os sonhos, as visões, as sincronicidades… É a substância a que podemos aludir com símbolos, imagens ou a metáfora poética, antes que com a estrita técnica, os conceitos impecáveis ou o ensaio consciencioso. Essa ordem não é prévia à consciência que o percebe, mas sim simultâneo a ela, coexistente. A ordem do mistério e a consciência que o transparenta não são um conseqüência do outro (nem muito menos “sublime ascensão” um e “pecaminosa queda” o outro), mas sim um sagrado vínculo que cria o mundo, a amorosa dinâmica que gera todo aquilo que definimos como realidade.

Voltando para exemplo, esse principio universal ao que nomeamos “Saturno” só existe ao valer-se de substância material para fazer-se visível, faz-se atual em pessoas, coisas e feitos recebidos por nossos sentidos para ser reconhecível pela consciência (neste caso em figuras como o pai, a autoridade, os mandatos, as instituições, o tempo, os limites corporais, a estrutura óssea, etc.). Esse princípio responde a uma dimensão que poderíamos chamar vibratória, à ordem da energia, não da matéria concreta em que se manifesta.

Lembran de aquele jogo infantil no que púnhamos uma folha de papel em branco sobre uma moeda e logo passávamos um lápis até que ficasse a impressão do relevo da moeda sobre o papel? A “moeda” seria aquele principio energético universal (e, por extensão, o potencial de todos os princípios energéticos sintetizados em uma carta natal) e o “papel” a substância material dos acontecimentos concretos de nossa vida. Confundir uma coisa com outra (por exemplo, que nosso pai “é” Saturno) seria como confundir “a moeda com o papel que a transparenta depois de ter acontecido um lápis”: só conhecemos a transparência da moeda no papel (nosso pai), não a moeda em si (Saturno).

Tomando ao pé da letra este jogo da moeda e o papel”, poderia-se dizer que todo o dito é absurdo, porque é óbvio que correndo o papel nos encontraríamos com a moeda real -de muito concreta e material substância para nossos sentidos- e afirmar então que ficaria demonstrado que a moeda “é prévia” ao papel sobre o que a havemos transparentado, que já existia antes de cobri-la para nosso experimento. E considerando a Saturno como a “moeda” de nosso jogo, poderia dizer-se com toda segurança que o planeta físico ao que chamamos “Saturno” existe de um modo astronomicamente muito efetivo e que, por certo, “já estava ali” antes que o olho humano o descobrisse.

 Mas, o que aconteceria se tirássemos o papel e não houvesse moeda nenhuma? Pareceria-nos inaudito, impossível de que ocorra. Não obstante, o complexo daquilo que estamos investigando em astrologia é que trabalhamos com a paradoxal substância do mundo psíquico, uma substância com a como se corremos o papel não nos encontrar nenhuma moeda”. Nosso suposto astrológico não considera o planeta físico e suas hipotéticas influências materiais, mas sim -se me permite o término- ao planeta psíquico. Quer dizer, em astrologia atendemos à correspondência entre essa entidade que efetivamente existe no plano material concreto e essa outra aparente entidade que atua como princípio energético no psiquismo humano, e tratamos de estimular à consciência para que seja sensível a sincronicidade do comportamento cíclico desse corpo no Sistema Solar com os específicos acontecimentos da experiência humana externa e seu inequívoco correlato interno. A diferença do que ocorre na realidade da substância concreta, nossa “moeda” não tem localização espacial nem materialidade alguma. A moeda transparentada no papel não tem existência física alguma prévia ao momento em que a pressão do lápis começou a revelá-la. Nunca poderemos dar conta da moeda, não por falta de algum tipo de capacidade especial, ausência de dom natural ou de suficiente esforço, mas sim porque não há moeda alguma em nenhum lado. Sua existência só cobra sentido nesse ato mágico de transparência e significado de que é capaz a consciência. Não se trata de que a consciência “descobre” a Saturno, não se trata de que Saturno já está “aí fora” esperando que o descubram, mas sim o encontro entre a consciência (que significa) e o fato (que se oferece a ser significado) revela o princípio taciturno; esse fato resulta oportuno para que a consciência o signifique e se revele uma pauta universal.

Essa consciência que significa é “o lápis pressionando o papel”. Enquanto o lápis não pressiona, o papel nada põe de relevo. Isto é, enquanto a consciência não significa os acontecimentos, estes nos aparecem aleatórios, carentes de sentido, fora de toda ordem. Se a consciência não estiver ativa (lápis pressionando), a alma não se revela (moeda).

Deste modo, aquela pessoa em que vejo Saturno ou essa situação em que vejo Saturno, não “é” Saturno. Simplesmente, Saturno não tem existência em si mesmo (é a moeda que não existe em nenhum lado). Essa pessoa ou essa situação é a substância necessária para que a consciência transparente o princípio universal taciturno. É a consciência a que pode ser capaz de lhe dar a essa experiência –a essa pessoa ou situação aparentemente externa em que vejo Saturno- o significado taciturno. É essa consciência que se ativa em mim e que não é mérito, obtenho nem conquista de meu eu, mas sim é algo do que essa frágil sensação de identidade a que chamo “eu” participa, mas que se pretende capturar então malogra e distorce (e estou tentado de dizer profana).

Certo é que pessoas ou situações específicas revistam ser significantes muito contundentes do princípio taciturno, tanto que podem parecer objetivos. Grande quantidade de pessoas (consciências) podem coincidir em encontrar neles a mesma transparência, e o efeito é tão potente e persuasivo que realmente parece que essa pessoa e essas situações “são” Saturno, mais à frente ou previamente à atividade da consciência que os significa. Essa ilusão de eloqüência e objetividade é um alto feitiço, tão irreal como acreditar que recortando o relevo da moeda transparentada no papel se desponha então de uma moeda de curso legal.

Toda realidade transparenta uma ordem. A ordem não é prévia ao momento de ser percebido. Não é uma ordem que já está criado e agora é descoberto pela mente sagaz. A ordem é criada no momento que se revela à percepção, no momento que é visto. A ordem é co-criada pela consciência em vínculo com os acontecimentos. E isto pressupõe um fato prodigioso, transcendental e existencialmente estremecedor: a evidência de que essa co-criação implica a dissolução do borde que separa “consciência” de “acontecimento”. Quando a consciência se reconhece (e muito tem que ver com um ré-encontro) nesses acontecimentos, percebe que é esse destino, cria-se o mundo.

 Nosso destino transparenta uma ordem. A realidade do que sentimos, a vivência concreta e material do que nos sucede, transparenta uma verdade surpreendente, comovedora e sempre misteriosa a nossos esforços racionais. A matéria é a divina substância onde transparenta- se a alma.

(Tradução de Silvia Ceres)

 

Anuncios

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s

Categorías

A %d blogueros les gusta esto: